O torcedor pagante virou a receita menos estratégica do futebol

O torcedor pagante virou a receita menos estratégica do futebol

A receita gerada em dia de jogo, que reúne bilheteria, sócio-torcedor, camarotes, cadeiras cativas e consumo no estádio, representou 12% do faturamento dos 20 clubes da Série A em 2025, abaixo da participação registrada nos três anos anteriores. O dado é do levantamento anual da EY divulgado em julho de 2026, o mesmo que aponta receita total recorde de R$ 14,9 bilhões.

Cresceu tudo, e a fatia que vem diretamente do torcedor encolheu em participação. Para um negócio que se apresenta como movido a paixão, esse é o número mais desconfortável do balanço.

A receita mais previsível é a que perde espaço

Vale separar as três grandes fontes de receita de um clube pela natureza de cada uma, porque elas não se comportam do mesmo jeito.

Direitos de transmissão e premiação dependem de resultado esportivo e de calendário. Somaram R$ 4,9 bilhões em 2025 e foram impulsionados por um evento novo, a primeira Copa do Mundo de Clubes. Patrocínio depende do apetite do mercado: chegou a R$ 3,9 bilhões, alta de 45%, e passou a representar 26% do total, a maior fatia desde 2021.

Já a receita que vem do torcedor presente é a única das três que não depende de classificação, de sorteio de chaveamento ou de ciclo econômico de um setor anunciante. É assinatura, é hábito, é relação direta. E é a que caiu para 12%.

Um clube que cresce assim fica mais rico e mais frágil ao mesmo tempo, porque aumenta a dependência de fontes que ele não controla.

O sócio-torcedor está encolhendo em números absolutos

A perda de participação não é só efeito de as outras receitas terem crescido mais rápido. Em alguns casos, a base de sócios diminuiu de fato.

O Palmeiras, líder do ranking nacional, tinha 167.909 sócios-torcedores adimplentes no plano Avanti em janeiro de 2026, cerca de 17 mil menos do que no levantamento de julho de 2025, uma retração de 9%, segundo o UOL. O clube segue na liderança com folga, mas liderar um ranking em queda é um sinal, não um consolo. O mesmo levantamento aponta movimento oposto em clubes como Atlético-MG e Corinthians, que cresceram no período, o que mostra que a queda não é uma condição de mercado inevitável.

A palavra que importa aqui é adimplente. Programa de sócio-torcedor não se mede por cadastro, se mede por quem está pagando neste mês. É a mesma métrica de qualquer negócio de assinatura, e é onde a comparação com o resto da economia digital fica inevitável.

O problema é tratar assinatura como campanha

Aqui está a tese central: a maioria dos clubes brasileiros opera o sócio-torcedor como ação de marketing, quando ele é um produto de receita recorrente.

A diferença é prática. Campanha tem começo e fim, meta de adesão e pico de venda amarrado a um momento de empolgação, normalmente uma decisão ou uma contratação. Produto de assinatura tem outra rotina: acompanhamento de churn, motivo declarado de cancelamento, ciclo de renovação, escada de planos, entrega de valor nos meses em que o time joga mal.

Quem trata como campanha capta na euforia e perde na sequência, porque o benefício central do plano costuma ser prioridade em ingresso, algo que só tem valor quando o time está bem e o estádio está disputado. Quando o desempenho cai, o benefício perde sentido e o cancelamento vira decisão fácil.

Quem trata como produto constrói motivo de permanência que não depende da tabela: conteúdo exclusivo, participação em decisões simbólicas, vantagem em loja, experiência que existe também na semana sem jogo. É o mesmo princípio de retenção que ligas nativas digitais aplicam com fantasy e votação, que já discutimos por aqui.

Por que isso vale dinheiro além da mensalidade

Reduzir o programa de sócio à receita da mensalidade subestima o ativo. Um clube com base grande de sócios adimplentes tem três coisas que valem mais do que o valor arrecadado.

A primeira é previsibilidade de caixa, que muda a qualidade do planejamento e o custo de captação de crédito. A segunda é uma base de dados própria de torcedores identificados, com histórico de consumo e contato direto, exatamente o que um patrocinador quer alcançar num mercado em que o rastreamento por terceiros perdeu força. A terceira é poder de negociação: vender para uma marca o acesso a 150 mil pagantes identificados é uma conversa diferente de vender exposição estimada em transmissão.

É por isso que a queda do matchday para 12% é mais séria do que o percentual sugere. Não é só receita menor. É menos dado próprio, menos previsibilidade e menos poder na mesa com patrocinador, no momento exato em que a receita de patrocínio se tornou a maior fatia do bolo.

Conclusão

O futebol brasileiro bateu recorde de faturamento reduzindo o peso da relação que mais controla, a que tem com o torcedor pagante. Enquanto patrocínio e premiação sustentarem o crescimento, o modelo funciona. Quando um desses ciclos virar, e o recuo das casas de apostas no patrocínio máster mostra que ciclos viram, a base de sócios será a única receita que continua entrando no mesmo dia do mês.

Tratar essa base como produto, com métrica de retenção e entrega de valor durante todo o ano, é a decisão de gestão mais barata disponível hoje. E é a que quase ninguém está tomando.

Perguntas frequentes

Quanto a receita de dia de jogo representa no faturamento dos clubes?

Representou 12% do total dos 20 clubes da Série A em 2025, abaixo da participação dos três anos anteriores, segundo o levantamento anual da EY divulgado em julho de 2026. O item inclui bilheteria, sócio-torcedor, camarotes, cadeiras cativas e consumo em dia de jogo.

Qual clube tem mais sócios-torcedores no Brasil?

O Palmeiras lidera, com 167.909 sócios adimplentes no plano Avanti em janeiro de 2026, ainda que com queda de cerca de 9% em relação ao levantamento de julho de 2025, segundo o UOL.

Por que a receita de sócio-torcedor é considerada mais valiosa?

Porque é recorrente e não depende de resultado esportivo, de calendário de competição nem do apetite de um setor anunciante. Além da mensalidade, gera previsibilidade de caixa e uma base de dados própria de torcedores identificados.

Qual é o erro mais comum na gestão de programas de sócio?

Operar como campanha em vez de produto de assinatura. A captação se concentra em momentos de euforia e a retenção não é gerenciada, então o cancelamento cresce quando o desempenho esportivo cai.

Como aumentar a retenção de sócios sem depender do desempenho do time?

Oferecendo valor que exista nas semanas sem jogo e que não seja apenas prioridade em ingresso: conteúdo exclusivo, vantagem em loja, participação simbólica e experiências ao longo do ano. O objetivo é dar motivo de permanência independente da tabela.

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